17 de maio de 2014

Pelos, sexo e feminismo



A depilação feminina já era usual na época de Cleópatra, rainha do Egito há cerca de 2 mil anos, e continua sendo usada como arma de sedução no mundo moderno.

No entanto, enquanto muitas mulheres fazem depilação completa no corpo, aí compreendidas a região vaginal e anal, está surgindo o movimento “au naturel”, que incita as mulheres a manterem seus pelos no lugar em que nasceram, como axilas e virilhas.

A origem desse movimento, que inclui muitas adeptas e várias teses que passam pelo feminismo, está centrada em duas bases principais: o fato de submeter as mulheres aos caprichos do mercado que está sempre lançando algo novo para depilação e submissão a vontade masculina.

A internet está cheia de manifestos e ensaios por todo o mundo e também aqui no Brasil.

Reprodução Alexandra Sophie

A fotógrafa francesa Alexandra Sophie apresentou no fim do ano passado um ensaio com uma modelo não depilada em poses sensuais denominado Winter (Inverno), em alusão à época do ano em que muitas mulheres não se depilam. 

Segundo Alexandra, vivemos a “Generation Hairless”, com uma juventude está cada vez mais obcecada em retirar todos os pelos do corpo. "Mulheres adultas têm pelos. Não é feio, não é sujo nem incompatível com a feminilidade, mas sim um sinal de maturidade física". 

Ela também faz um comparativo entre homens em mulheres, pois eles podem envelhecer, ficar grisalhos, ter rugas e pelos no corpo e ainda assim mostram-se maduros e atraentes enquanto as mulheres precisa retirar seus pelos, pintar seus cabelos e eliminar rugas para manterem-se com aparência jovem e inocente.



Reprodução Alexandra Sophie

Ben Hopper é um fotógrafo israelense que vive em Londres e fotografou muitas mulheres, inclusive atrizes e modelos, que não tinham o hábito de depilar as axilas ou que concordaram em deixar os pelos crescidos para a série Natural Beauty. Uma forma de protestar contra os padrões de beleza impostos pela sociedade. Dá uma conferida nas fotos, que foram extraídas do Facebook do fotógrafo:

Emilia Bostdt - atriz


Rakel Lindegren – atriz e modelo

O MIEL - Mouvemente international pour une écologie libidinale – é um movimento francês pelo retorno dos pelos pubianos pelos mais variados motivos: saúde, pois deixaria a pele mais exposta a ressecamento e na região vaginal a bactérias; incentivo a pedofilia, pois a mulher toda lisa parece uma criança; financeiro, pois se gasta muito dinheiro com depilação; marketing, pois a mídia mostra claramente mulheres sem pelos (e as indústrias pagam muito caro para isso); tempo, pois você pode fazer outra coisa e não perder tempo depilando-se. Enfim, são muitos argumentos e o texto é bem longo. A base está no feminismo, pois em qualquer caso isso significa submissão e controle masculino na vida das mulheres.


Ermer o'Toole exibe suas axilas. Fonte Dailymail
Ermer o’Tool é uma professora irlandesa que leciona no Canadá e em 2012 foi a um debate na TV quando estava sem se depilar há 18 meses.  Ela disse que começou a raspar as axilas aos 14 anos, como toda adolescente, e o fez porque era isso que todas faziam. Sua decisão em não depilar mais foi por causa do que chama de pressão sobre as mulheres para se conformar com “as normas artificiais do gênero”. 

Emer mencionou um escândalo ocorrido em Dublin, onde um salão de beleza foi acusado de oferecer “depilações de virgem” para crianças de 11 e 12 anos, alegando que tal ação precoce garantiria que os pelos não se desenvolveriam quando a criança ficasse adulta. Esse comportamento irresponsável que Erme afirma que está afetando negativamente as jovens, aumentando a já crescente pressão que elas sentem para remover todos os pelos do corpo desde a tenra idade.

Fonte Dailymail





No início do ano, em um artigo para o The Guardian, em que é colunista, Erme declarou que este é “o ano a moita”. As mulheres tem o direito de escolher se querem ou não se depilar, sem ter vergonha de assumir seus pelos, sem achar que é sujo ou anti-higiênico. Ela afirma que "O ímpeto capitalista de nos convencer que o pelo no corpo feminino é antinatural e anti-higiênico vem sendo alarmantemente bem-sucedido. 

A indústria de depilação movimenta milhões, e um sem número de mulheres se sentem envergonhadas e aflitas com o seu pelo pós-puberdade. Mas a indústria é gananciosa. Ela tem de convencer o mundo que o pelo púbico feminino também é sujo. Agora, tenta convencer as pessoas de que o pelo no corpo do homem também é igualmente inaceitável." Cita ainda a atriz Cameron Diaz, que incluiu em seu livro um capítulo dedicado aos pelos pubianos, em que declara que “removê-los é o mesmo que dizer ‘eu não preciso do meu nariz”. Pois se estão ali, é por algum motivo. 

Lançado no fim do ano passado, o livro de autoajuda de Cameron Diaz, intitulado The Body Book: Feed, Move, Understand And Love Your Amazing Body (editora Harper Collins, 263 páginas) traz dicas da atriz sobre nutrição, exercícios físicos e saúde mental. Sobre o assunto, a atriz filosofa ainda: "Os pelos púbicos servem como uma linda cortina àquele que talvez esteja cortejando a sua sexualidade. Eles mantêm os seus tesouros privados, o que pode atiçar um amante a dar uma olhada no que você tem para oferecer".


Reprodução coletivo Além
O projeto Pelos Pelos, do Coletivo Além, de Núbia Abe e Mateus Lima, traz inúmeras fotos de mulheres e homens que exibem seus pelos ao natural e com muita naturalidade, e além das fotografias também há vários depoimentos de mulheres que não só se permitiram fotografar como se inspiraram nas fotografias para deixarem de se depilar. O Pelos Pelos é um “ensaio político-poético, composto de imagens, que se propõe a causar reflexão sobre a naturalidade dos pelos em nossos corpos. É necessário pensar por que são geradores de tanto asco e por que nos mutilamos frequentemente para nos livrarmos deles. Compreendemos que vivemos em uma sociedade permeada por um machismo que corrói nossas relações e comportamentos, que define opressão cruel às mulheres.”


Reprodução coletivo Além


O flagra mais “cabeludo” vem da linda mulher Júlia Roberts, quando em 1999 em evento de promoção do filme Um lugar chamado Notting Hill, em Londres, ela acenou para os fãs mostrando a vasta cabeleira. Em 2010, de férias no Havaí, a cena se repetiu.









Mas ela não é a única, inúmeras atrizes já foram flagradas sem se depilar, e ao que parece na Europa e nos Estados Unidos, ter pelos no corpo não é o fim do mundo que parece ser aqui no Brasil.


Sophia Loren
Sarah Jessica Parker


Penélope Cruz

Seja qual for o motivo, o que eu penso é que devemos ter liberdade de escolha, depilar, raspar ou deixar ao natural. Cada um do seu jeito.

Podemos até achar feio, anti-higiênico ou fora de moda, mas a verdade é que o que esses movimentos ou mulheres pregam é que a mulher deve ser dona, aliás, comportar-se como dona do seu corpo.

Mas confesso que acho mais bonito, visualmente, uma axila lisinha num vestido bem cortado.

No entanto, que cada um se comporte como se sente melhor, e que aprendamos a não julgar pelas aparências... 


Comento que aquela menina tinha pelos púbicos e a que está agora diante de mim raspou os seus - algo que considero abominável, como se todos os homens buscassem sempre uma criança para ter relações sexuais. Peço que ela nunca mais faça isso, ela promete que jamais tornará a raspá-los. Paulo Coelho, em O Aleph, Gold Editora, 2011, p.166/167.

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