Um bolo me chamou atenção em Lisboa,
o bolo rei, famoso na Confeitaria
Nacional. E ao escrever o post sobre ela aqui fui
conhecer a história dessa iguaria.
A tradição é ter na massa do bolo rei uma única fava e um brinde,
em metal ou porcelana. A côdea (massa) simboliza o ouro, as frutas secas e
cristalizadas a mirra e o aroma do bolo remete ao incenso. Visualmente, ele
também lembra uma coroa cravejada de pedras preciosas.
Reza a lenda que quando os Reis Magos viram a estrela que
anunciava o nascimento do Menino Deus discutiram para saber qual seria o
primeiro a entregar o presente ao recém nascido.
A solução vem de um padeiro que confeccionou um bolo e misturou
uma fava na massa. Quem pegasse a fava seria o primeiro a presentear o Menino
Deus. Mas não se sabe quem de fato foi o primeiro a presentear, se Baltazar,
Melchior ou Gaspar.
A receita do bolo rei correu o mundo, e sua fama por proporcionar
prosperidade a quem comesse a fatia que continha a fava, mas esta pessoa
deveria oferecer o bolo rei no ano seguinte.
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| Favas verdes |
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| Favas secas |
Mas lenda a parte, a história é outra.
Há mais de dois mil anos os romanos costumavam realizar no
solstício de inverno, entre 17 e 25 de janeiro, uma festa em honra a Saturno,
deus da agricultura, celebrando-se o período mais frio e escuro do ano e o
nascimento do Sol Invictus,
o fim do ano velho e início do outro, pois sendo agricultores aguardavam o
momento da semeadura.
Comemorava-se com banquetes e sacrifícios, nestes dias os serviços
públicos não funcionavam, os escravos ficavam livres (e por vezes trocavam de
lugar com seu senhor), a bebida e os jogos de azar eram liberados a todos
Nesta época também tinha-se o costume de visitar amigos e parentes
levando presentes e comumente se realizava a eleição do Rei da Festa, também
chamado de Rei da Fava, pois os votos eram contados pelas favas.
Com o passar dos anos o Cristianismo tornou-se a religião oficial
e os ritos pagãos foram sendo banidos do calendário romano.
Banidos não, adaptados.
O nascimento do Sol
Invictos foi substituído pelo
nascimento de Jesus Cristo, o costume do presente entre amigos e parentes
manteve-se no dia de Natal e a festividade com banquetes e bebidas
transferiu-se para o 31 de dezembro, mas perdeu o significado agrário.
E o bolo rei?
A Epifania do Senhor era comemorada doze dias depois do Natal, em
6 de janeiro, que a Igreja Católica oficializou como Dia de Reis, e daí surgiu
uma tradição que afirmava que os cristãos deveriam comer 12 bolos reis entre o
Natal e esta data. E na França essa celebração ganhou status com a criação do
bolo rei, no tempo de Luís XIV, para as festas de Natal e Dia de Reis.
A tradição da rainha e do rei da festa foi eternizado no quadro Fest des Bohnenkönigs ( O Rei da Fava) pintado por Jacob Jordaens, 1635-1640, em
exposição no Kunst Historiches Museun Wien, na Áustria.
Em outra obra, Le Gâteau des Rois pintado
por Jean Baptiste GREUZE em 1774, em exposição no Musée Fabre,
na França, percebe-se a mesma tradição em família.
Com a Revolução Francesa, a iguaria ficou proibida por um tempo em
razão do nome, mas os padeiros continuaram a confeccioná-lo mudando o nome para gâteau des san-cullottes.
Mas com o tempo o nome retornou e os franceses ainda conservam o
hábito de comer o galette des
rois e ainda vive na memória
a brincadeira, quem achar a fava, será rei ou rainha!
LA GALETTE DES ROIS
Si tu trouves la fève dans la galette
Tu mettras la couronne sur la tête
Si tu n'la croques pas
Si tu n'l'avales pas
Alors ce sera toi
Qui sera la reine ou le roi !
E foi da França que Baltazar Castanheiro Junior trouxe a receita e
a confeccionou pela primeira vez em Lisboa, na Confeitaria Nacional, em 1870.
Daí em diante todas as confeitarias e pastelarias passaram a fazer o bolo rei,
mas diz-se que só a Confeitaria Nacional tem a receita original, guardada a
sete chaves, há mais de 180 anos.
Mas a receita trazida para Portugal é proveniente do sul do Loire,
levemente diferente da galette
des rois, guardando apenas a mesma essência, uma massa em círculo com
frutas cristalizadas (lembrando uma coroa), perfumada e com uma fava dentro.